A espada de Dâmocles

O ônibus que veio de Gov. Valadares me trazendo entrou na Av. Brasil em torno de 6:30 horas da manhã .Eu nunca havia visto carro a 5 cm da lataria de outro e do ônibus e mesmo que este fosse como um dinossauro no meio do transito eu comecei a chorar de medo

Aos 16 anos incompletos e com a ousadia de uma cidade do interior vir tentar cursar medicina os medos se coadunavam com a menina que nunca crescera intelectualmente conforme a idade cronológica . Bastante inteligível porque ou estava em colégio interno ou sob rigorosa vigilância paterna e materna. Os hormônios da adolescência óbvio que existiam nas eram digamos ” tamponados” pela necessidade de estudo e mais estudo e mais a certeza de que eu queria mesmo era deixar para trás uma vida de interior e tendo vivido com dois irmãos mais velhos era com eles que me sentia segura. Para não fugir a regra da época minha grande paixão foi o Paul MacCartney a quem eu amava com todas as minhas sensações hormonais e tinha a mais absoluta certeza de que ele viria de Londres e me acharia para me casar com ele sim porque a época tinha de casar e virgem diga-se de passagem uma vez que a honra de uma menina era o hímen intacto

Eu tinha tudo intacto porque nas idas e vindas de colégios e conventos de freiras a última coisa que se aproximou de mim foi um homem exceto uma pessoa linda cheia de respeito que aproveitou a música “do you wanna a dance “ e me tirou para dançar e pegou em minhas mãos e pasmem foi só que eu permiti e ele respeitou

Guarapari é aqui perto de onde eu moro ,eu nunca mais soube dele mas devia ter guardado as cartas de amor que me destinou

Lindas, escritas em perfeito português , apaixonadas e apaixonantes .

Quando tentou me ver na minha cidade para pedir permissão aos meus pais para me namorar foi colocado de volta no trem que chegou pelos meus irmãos e lá se foi o meu único grande amor ,real, da adolescência .

Daí em diante só deu Paul na veia o qual em se casando com a Linda me fez ser retirada por total descontrole emocional da sala de aula ( quarta série) ou seja cheguei ao Rio ainda apaixonada mas afinal de contas ele era casado e isto era proibido.

A todo momento eu olhava para ver se não haveria uma colisão até chegarmos a rodoviária e encontrar os dois irmãos a minha espera.

Como durante os 15 anos eu me sentia protegida os vendo e os tendo ao lado.

Hoje aos 65 anos eu me pergunto porque escolhi medicina se foi porque o pai era um farmacêutico prático e com ele todos se consultavam e eu o via trabalhando em prol de outros dia e noite uma vez que muitas cidades que moramos não havia médicos e ele era quem curava sem discriminação a todos ou se pela admiração dele quando tínhamos médicos .

Ele ficava fascinado pela competência ( se eram realmente não posso afirmar) dos médicos e os admirava por demais. O fato é que ele deixou que eu viesse ao Rio com uma condição : teria de passar em faculdade não paga e teria somente uma chance para entrar na faculdade . Se não conseguisse voltaria para casar porque a prioridade era dos meninos que seriam chefes de família. Neste primeiro ano no Rio o pai da noiva do meu irmão mais velho pagou o cursinho prevestibular para mim e moramos juntos os dois irmãos e eu, uma vez que os pais em 1969 tiveram condições de alugar um apto para nos três (o único ano ). A situação financeira dos pais sempre assemelhou-se a um eletrocardiograma absolutamente cheio das diversas arritmias mas eles tinham ( por não terem) o objetivo de que todos nós, a estas alturas éramos 6 , tivéssemos um diploma .

Com a “espada de Dâmocles” auferida a mim pelo pai eu estudava até altas horas da madrugada e muitas vezes cansada pensando em dar uma pausa vinha a minha cabeça a cena do avantajado abdômen de um possível marido , um monte de menino puxando minha saia ,cachorro, periquito ,galinha e porco e eu voltava rapidamente renovada as apostilas enormes a serem devoradas .

Autor: betaniasemh

Professora universitária pela UERJ e médica do Hospital Federal Cardoso Fontes/ Rio de Janeiro duração : 35 anos aposentada 65 anos. Solteira, sem filhos. Viagens, arte, música e escrever são minhas predileções atuais não deixando de forma alguma a medicina agora como um fator de ajuda a necessitados. A paixão por escrever sobre os mais variados assuntos me moveu até aqui.( Ler é vestir a alma, escrever é despi-la) Resido atualmente na região serrana do estado do Espírito Santo na cidade de Santa Teresa colonização italiana e alemã.

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