Santa Teresa

Apreensiva , excitada, feliz, faces coradas agarrada na malinha junto ao meu irmãos .

Criada com ambos fazendo carrinhos das sementes de abacate , eu tinha uma árdua missão : construir no jardim a estrada por onde passariam os ” automóveis” deles e, óbvio, levar a surra do pai porque o jardim estava esburacado . Eles riam. Não adiantava entrega-los, sempre negavam. Taí uma lição que deveria ter aprendido: negar . Consigo não. Nunca consegui durante toda uma vida.

As férias escolares chegavam junto com o coral, vermelho dos Flamboyants e lá estava eu sentada entre eles no trem da vale , o pai recomendando ao mais velho que olhasse por nos outros é só deixasse nossa mão quando ele visse o tio titi ( pai do Marcelo) na estação para irmos com ele em Colatina pegar o ônibus cinza com o bagageiro ainda encima . Ele nos sentava no fundo do ônibus de modo a não atrapalhar os demais passageiros e como cobrador honestíssimo passávamos despercebidos por todos. Não podíamos falar , quietinhos.

Fazia parte do ” acordo” com a mãe dado a situação financeira.

Chegar em Santa Teresa era tão maravilhoso como deve ser, se existir, chegar ao paraíso .Enquanto eles ( afinal eram homens) levavam a bagagem até a casa da nona Ursula Caser eu me separava correndo para casa da tia Virgínia e tio Carlos porque sabia que sendo época ou não o cacho de uva era deliciosamente doce como doces eram as expressões dos seus lindos rostos. Saia serpenteando pelo parreiral e cansada chegava a casa de três portas altas já levando bronca em italiano ou seja lá o que que nona falava . E tome de comer . Afinal criança sadia era criança gorda ( herança dos sobreviventes da epidemia de tuberculose) . A Rua não tinha nome de lazer , era um emaranhado de rostos amigos fraternos, vermelhos. olhos cintilantemente azuis, verdes, multicor.

Eu sempre tive uma pressa enorme em ir ver a pracinha. Não , em nenhum lugar do mundo mais , absoluta certeza , eu vi rosas iguais tinham no jardim. Elas tinham uma majestade tanto em tamanho quanto na cor. Não , não se ” misturavam” com cores muito fortes. Elas eram do tênue rosa ao branco , possuíam um perfume também de uma suavidade similar a sua cor. A mata parecia nos aprisionar em um mundo mágico . E sim, mágico foram todos os instantes da infância descalça pelas ruas ( lindas , viu?) de Santa.

Mágicos foram os momentos da adolescência ou no meu caso, ” quase adolescência” onde adorava ter permissão para ir ao baile ( delícia o clube) e como fêmea a despertar ficava de olho nos lindos homens daquela época que indubitavelmente estavam cortejando as belíssimas ” maiores” daqui . Mas olhar eu olhava.

Depois o estudo mergulhou em mim é eu nele, a busca ( eterna) pelos sonhos, o reconhecimento a carreira escolhida ou seja o , digamos, hiato ente este tempo e o agora voltando foi enorme assim como é enorme o abismo entre lá e o agora.

As rosas são minúsculas mas eu continuo indo lá , costumo dizer que tenho o consultório mais bonito da cidade , muito embora as rosas estejam pequenas.

Olhem existe o Sr. Vando e sua imbatível água de coco e eu ganho algo de graça ou a água ou uma manga se acerto a medicação dele e não ganho nada se brigo com ele por causa da barriga que está enorme ( igual a marmita que come) , atendo quando perguntam os taxistas , pessoas lindas. Continuo a brigar porque os beijos estão murchos

Não, não é a mesma Santa

A mata não me circunda mais , assusto com madeiras ou sei lá o que soltas lá encima dos morros . Pergunto , pela enésima vez, ( não por curiosidade ) de quem é aquela casa ou a outra porque não existiam e com todo respeito acho que pergunto de novo porque quero ver mantida aquela linda Santa .

Não me venham chamar de utópica ou sonhadora

Eu sou .

Que você Santa tenha um próximo lindo futuro , que ao se permitirem construções o sejam embasadas na sua arquitetura original e que ( nunca desisto) volte a ver o sorriso e as bochechas vermelhas .

Que a concertina não se resuma a apenas alguns dias e sim volte as portas

Utópica?

Admito

Mas não falem a mim em impossível

Santa de minha família entremeadas de inúmeras outras , faça de conta que não ouvi a nona Ursula dizer ( em italiano)) que não iria de avião porque se Deus quisesse que o homem voasse teria dado asas a ele e que “no” “no” o homem não foi a lua , não pisou lá. Foi filme. Deus não deixa ” no”

Santa: lindo Natal!

Torçamos para voltarmos a ter nossas rosas se é que a espécie ainda existe

,

Autor: betaniasemh

Professora universitária pela UERJ e médica do Hospital Federal Cardoso Fontes/ Rio de Janeiro duração : 35 anos aposentada 65 anos. Solteira, sem filhos. Viagens, arte, música e escrever são minhas predileções atuais não deixando de forma alguma a medicina agora como um fator de ajuda a necessitados. A paixão por escrever sobre os mais variados assuntos me moveu até aqui.( Ler é vestir a alma, escrever é despi-la) Resido atualmente na região serrana do estado do Espírito Santo na cidade de Santa Teresa colonização italiana e alemã.

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