O peixinho de nosso aquário II

Após o diagnóstico nos ser comunicado como se estivesse recitando uma ária de ópera sem nenhum tipo de componente emocional ou sequer um olhar a mãe que lhe entregara a filha sonhada eu fiquei ali ao lado de minha irmã desmaiando e tentando segura-la enquanto a outra mão tentava pegar Agatha sendo a nós devolvida pelo pediatra . Convulsões tônico clonicas com incidência incontáveis vezes e duração desconhecida, retardo mental bastante acentuado, déficit motor e glaucoma fechado já necessitando de cirurgia aos tenros 20 dias de vida .

Por sempre ter estado ao lado desta irmã , a caçula, desde lá no Rio e com ela ter curtido muito seus filhos anteriores ambos homens e mesmo antes disto sempre ser o apoio e a direção tomada por ela em uma relação quase com uma diferença de 10 anos muito se pareceu e ainda se assemelha mais a de mãe-filha .

Sempre fui incisiva, direta e franca com meus pacientes. A eles sempre respeitei o direito que lhes é mister: a verdade. O modo e a modulação de nossa voz e o enfrentamento do olhar como se minha assinatura fosse conseguiam atingir o objetivo doído mas impossível de ser camuflado. Daí eu ficar olhando o pediatra com vontade de esgana-lo mas a prioridade era ver a irmã e olhar para Agatha .

Prescrições sendo feitas a frente , indicação de neuropediatra, oftalmologistas, radiologia intervencionista e não, chamando a atenção de minha irmã que tremia e cuja cor marmórea não deixava dúvida da pior dor que considero aos humanos: a da alma que calma externamente, queima como se lava oriunda de um vulcão o fosse dentro de nós.

Olhei para Ágatha como tia e não médica. Tive de rapidamente mudar a minha condição para a ‘” falsa mas necessária” frieza médica por motivos mais que óbvios : se demonstrasse o meu horror, dor, pavor e ódio ao pediatra certamente a implosão do consultório seria inevitável porque a minha já havia ocorrido e correr de meus restos senti enorme necessidade.

Ele ainda a acompanha em seus atuais 20 anos e é lindo ver a relação criada ente ambos e mesmo que eu tenha contado a ele nossos sentimentos narrados acima ele riu e continuou sendo grosseiro e um ” trator” passando mas não errou em nada com Agatha . Nada ! e acresço que em 2018 o conhecimento da síndrome seja maior mas as incertezas o superam.

Autor: betaniasemh

Professora universitária pela UERJ e médica do Hospital Federal Cardoso Fontes/ Rio de Janeiro duração : 35 anos aposentada 65 anos. Solteira, sem filhos. Viagens, arte, música e escrever são minhas predileções atuais não deixando de forma alguma a medicina agora como um fator de ajuda a necessitados. A paixão por escrever sobre os mais variados assuntos me moveu até aqui.( Ler é vestir a alma, escrever é despi-la) Resido atualmente na região serrana do estado do Espírito Santo na cidade de Santa Teresa colonização italiana e alemã.

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