Rota 66

O enorme abismo que se abriu quando minha ” redoma” foi quebrada associada às malévolas intenções de quem a construiu e depois de anos cuidar de tudo com muito carinho , as idas ao carrefour para mobiliar o flat na barra , as vindas ao flat onde me instalara ” esperando o amor” que cumpriu um plano bem traçado de dentro da política de classe galgar os degraus que o levariam ao ápice sonhado e tendo a certeza de meu ” descarte” ficou com o cargo maior do local trouxeram de volta a delicadeza do homem com o qual vivi e aprendi o melhor em profissão e profissionalismo .

Veio, óbvio, depois de já tendo a certeza do deslize ( eu creio ter sido queda livre mesmo), perguntar a verdade sobre o porque da opção de deixá-lo . Águia que era, deve ser mais agora, já tinha tudo planejado minuciosamente. Em outro post eu falei que em tendo sido por paixão a não vinda da ‘ causa mortis” fez com que eu entendesse o moleque com o qual me envolvera. E o grande “amor “acabou em 3 dias, rs.

Quando diretamente e incisivamente fui perguntada do porque e a minha frente um olhar doce e muito sofrido( afff que ator extraordinário daria) e conhecendo a mim muito mais que eu mesma e em conhecendo sabia da sonhadora e sensível que o era eu não tive dúvidas em relatar toda a verdade.

Todas as mulheres que me cercavam foram unânimes em dizer: isto a “ gente “ nega sempre. A minha intenção foi tentar, dizendo a verdade, que finalmente o único vazio que existira , o diálogo, surgiria por fim. Assim poderíamos analisar todos os pontos de uma convivência que agora tenho certeza só durou porque não tínhamos tempo para nos vermos e era sempre um acontecimento superstar ao aparecermos em público.

Eu não neguei nada. Toda a “sórdida “ história lhe foi passada. Digo sórdida porque o pivô desta estória foi o único que se ” deu bem”.

O que ocorreu depois do sim a pergunta formulada eu não consigo sequer 26 anos depois teclar ou falar. Apenas que não houve o diálogo ‘”sonhado pela sonhadora”.

Ao acordar no dia seguinte o vazio do e no flat era assustador. Foram dias e dias de tortura mental, cobranças de todos os tipos e gêneros . O olhar de ódio mesclava-se ao sofrimento imensurável mas não por ter sido eu. Ele fora traído a si mesmo. A única pessoa que amou até aquela época sempre foi a ele. O Narciso não se reconhecia mais. Os “ meus galhos ( sempre inteligentemente negados)” deviam preencher todo o território nacional quiçá ,internacional, mas eu não podia ter feito . Eu era “ puta”. O mundo desabou sobre minha cabeça porque tudo era culpa minha. Ele afirmava isto e eu passei uma vida acreditando nele portanto eu fui culpada de tudo e por todos. Em tudo e durante mais de 10 anos , sim, ANOS, eu me culpei do todo e de tudo.

Um mês após a separação concretizada outra mulher ocupou a ” minha casa”, a única própria e viveram felizes para sempre ( com vários “opções” eu o vi pelos caminhos que nos encontramos) mas está lá feliz para sempre.

Após o ocorrido, sozinha no flat , tendo pedido licença nos empregos , fofocas do escândalo corriam pelo Brasil “ doente” mas eu não escutei nenhuma .

Eu andava entre o quarto a sala e a cozinha não mais cercada de antiguidades ou tapetes felpudos, andava até a varandinha que dava para o mar . O telefone nunca tocava. A impressão diagnóstica seria que fora tomada de doença contagiosa com a alcunha de ” puta” espalhada pelo bravo pendão da esperança rs. Apenas uma pessoa entraria daí há muitos dias e em sendo consanguínea do Narciso se faz passar por amiga quando na verdade vinha por exacerbar meu sofrimento, me dar notícias tipo: vovó faz niver e lá ia eu correndo comprar presente para vovó ou seja da ” rainha” virei capacho e objeto de riso ao me ver tão doída e objetivando a doença mental (eu tinha de ser exterminada pelo “Pigmaleão”, consternada e fazer-me sentir a pior mulher que viera a terra ). Conseguiram. Bichos tipo morcego e acho passarinho sei lá jogados na parede acima da cabeceira da cama com sangue escorrendo pela parede. Este horror só foi suplantado por uma estação de rádio que sempre ouvia a noite sozinha ainda “ casada’ e que tocava músicas suaves enquanto lá no quarto o controle da TV era manipulado ávidamente quando ainda na sonhada casa própria . Quando procurando me acalmar eu liguei a estação eu escutei a voz dele na locução com declarações de amor tão lindas , tão suaves entremeadas, eu creio, pelas músicas que eu ouvia e dizendo claramente onde estava me esperando , endereço e número. Não tive dúvidas , o carro que me sobrara era , também óbvio, o mais velho .Eu saí dirigindo perto de 21 ou mais horas me embreando por Jacarepaguá afora , perguntando onde era aquela rua, onde e como eu chegaria lá. Com muito custo cheguei quase por volta de meia noite e a ansiedade em achar o número só era suplantada pela certeza de encontrar o perdão e a compreensão esperando por mim.

O número era de uma retificadora de pneus, motores ou até talvez padaria enfim comércio e o meu cérebro registrou que eu virara uma oficina ou o que estivesse no letreiro. Escuro. Ermo. Terrível a desilusão. Horrível o desencanto e mais um abismo. Não me lembro como saí dali. Local perfeito para : já , a época, : assaltos seguido de morte.

Todo o velocímetro foi usado quando saí daquele lugar e fui parar no sítio em Itaboraí de tios. Eu não deixei de acelerar nenhum momento porque ligada na e à radio eu escutara agora ,reiterando , na voz dele que na verdade ele estaria me aguardando no sítio onde fôramos muitas vezes . A velocidade estava junto a mim, quebra-molas ( inúmeros) não existiam . Eu voava com o carro e a chance mais que real de acidente sério jamais foi pensada mas a probabilidade foi alta. Adentrei ao sítio já de madrugada gritando o nome de Narciso. Com todo e a plenos pulmões .

O rádio parara de me ” dirigir”. As pessoas abriram portas e janelas apavoradas com meus gritos . Todos atordoados com o ocorrido conforme, com dificuldade, eu contava ” exceto” um grande amigo que estava ao telefone falando e o vendo vi ser com o digníssimo narciso.

Alguém me deu banho de sal grosso rs. Chás calmantes associados aos tarja preta me levaram ao invés dos braços “seguros” de Narciso aos braços de Morpheu , exausta de tudo e a sensação de absoluto vazio , desesperança e falta de rumo em todos os sentidos. O meu “ leme ” não se encontrava em nenhum lugar.

A sequência psiquiatra/ psicólogo iniciou-se levada , feito uma criança ( e era) por parentes próximos e a avidez de notícias de “ meu Porto Seguro” me era dada pela porta voz do “ governo”. A mente completamente conturbada impedia o exercício da profissão e a eterna afirmação dos doutores da mente “doida e doída” de que precisava “ enfrentar” para superar davam terríveis resultados. A porta-voz sempre na cola porque afinal “ como fazer tal afronta a família X”?. Ficava no flat. Quando me dirigia a varandinha e via um carro de lixo ,eu era o carro. Os demais que estavam atrás se luxuosos eram a família ofendida, o mais perfeito e limpinho era Narciso.

– Está vendo? As “ outras pessoas” querem passar a sua frente porque não toleram seu cheiro. Viu sua puta? Carniça. Essa era minha mente. Impressionante este nosso cérebro . Eu”VIA” o acima relatado.

Os parentes mais próximos cansaram. Nem o mais conceituado psiquiatra conseguia que eu voltasse do surto. A porta voz colada me disse para ir à igreja. Os parentes me despacharam para os meus pais. A enormidade de “ mulher” com quem conviveram chegou em um aviãozinho , o único que conseguia a época pousar onde moravam. Eles me pegaram pelas mãos , como faziam quando criança, um de cada lado e em silêncio devem ter pego todo o relato da tia que me levou e os pareceres médicos e psicológicos. Eu precisava ir à igreja foi isto que a “porta voz” sugeriu.

Eu disse a eles.

Eles me levaram , fervorosos católicos que foram.

Pedi para ficar lá dentro sozinha e procurei me lembrar de alguma oração o que não foi difícil em internatos em conventos e moradia em pensionatos de freiras. De repente eu deitei no chão da igreja e comecei a rolar de todas as formas possíveis de um lado para outro, cambalhotas . Tiraram-me dali.

Eu corri para o telefone para contar a “ porta voz” o que eu fizera . Eu a escutava repetir alto tudo que eu contava . Nunca mais me ligou. Nunca mais neste “ período” falou comigo ou perguntou como eu estaria . A meta havia sido atingida: doída , doida e no interior “ de onde eu nunca deveria ter saído”( parecer de Narciso).

Pai e mãe me levaram a um psiquiatra de lá cuja recomendação, ao invés de retirar de mim meus absolutos “ parcos recursos”( objetivo atingido por Narciso) receitou duas doses de uma injeção cujo nome acho que nem depois de morta eu esquecerei . Quando o pai , farmacêutico pratico que o era e dos ótimos , aplicou a primeira dose ele o fez sorrindo e perguntado por mim porque sorria ele responde : você é muito engraçada doida minha filha. Eu “ pra lá de Marrakesh” já estava criando outras imagens a cabeça . Nos dias seguintes ele me levava a farmácia e fazia eu consultar os pobres que vinham consultar com ele. Nunca mais esqueci o “ berro” que dei o chamando quando um senhor me disse que “ tinha uma dor redonda”. Algum professor ou o todo poderoso havia, ou alguma apostila ,livro médico, explicado a mim o que era uma dor redonda?

-Paiiiiiiiiiiiiiii!

O que houve?

⁃ o que é “ dor redonda”?

E lá foi aquela enciclopédia “ médica de vida” tratar do meu primeiro paciente. E sarou o pobre homem que eu vi agradecendo a ele.

A tal milagrosa injeção me fez acordar depois de 3 dias de atendimento tomado com perguntas bem estruturadas e inerentes a vida no Rio.

⁃ Preciso voltar, tenho aluguel e mais algumas contas vencidas. Preciso colocar em ordem minha vida de agora.

Pai e mãe perguntaram com que dinheiro e tenho a certeza foi a primeira vez que consultei os contra-cheques dos empregos públicos (nunca me importaria em saber, gastava feito uma bipolar e nunca mas nunca fui ” freada” em minhas incursões caras aos shoppings)

Diante da realidade dos contra cheques perguntei : como se faz para viver com isto. Mais uma vez o pai ensinou tomando como exemplo o controle da farmácia acho que seriam entradas e saídas e como passar o mês dentro do orçamento ali à frente.

Voltei e a vida foi retomada aos pouquinhos deixando de lado a arrogância que reconheci ter sido e passando a escutar mais que ” ditar normas”

Não foi fácil ter deixado de ser a versão feminina de Narciso. Mas , confesso , até hoje me policio para entender o que foi feito de mim . Não há culpas mais . É isto é algo duramente conquistado. Não havia dinheiro para ajuda psiquiatrica ou psicológica. Nenhum amigo ou amiga presente. Todos se voltaram ao Narciso o reverenciando como a vítima.

Havia muito trabalho, estudo por fim, responsabilidade afinal é uma longa estrada que ainda percorro perto de estar 66 . Pensando melhor fica bem o título disto aí acima como Rota 66. Sem o Hopper , mas tendo a mim.. Finalmente .

Autor: betaniasemh

Professora universitária pela UERJ e médica do Hospital Federal Cardoso Fontes/ Rio de Janeiro duração : 35 anos aposentada 65 anos. Solteira, sem filhos. Viagens, arte, música e escrever são minhas predileções atuais não deixando de forma alguma a medicina agora como um fator de ajuda a necessitados. A paixão por escrever sobre os mais variados assuntos me moveu até aqui.( Ler é vestir a alma, escrever é despi-la) Resido atualmente na região serrana do estado do Espírito Santo na cidade de Santa Teresa colonização italiana e alemã.

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